O tio que cria e conta contos

por Carolina Bataier

Quem passa pela calçada da casa de Paulo Balderramas nem desconfia que no quintal existe uma fábrica de sonhos. Na edícula de piso frio, aos fundos da casa onde vive com a mãe no bairro Mary Dota, em Bauru, Paulo empenha horas na fabricação de fantoches e cenários para histórias infantis. Pela máquina de costura da oficina caseira já passaram Chapéuzinho Vermelho, lobo-mau, os três porquinhos, bruxas, fadas e outras dezenas de personagens.

Foram os bonecos que, 33 anos atrás, conduziram Paulo para o que hoje é seu ofício: o teatro. Ele tinha 11 anos quando decidiu participar de uma oficina de fantoches, onde aprendeu o básico para poder fabricar seus próprios bonecos. Com eles em mãos, montou o primeiro grupo de teatro da sua vida, formado por um amigo da mesma idade e uma prima de 14 anos. As primeiras apresentações do trio foram na Apae de Bauru. Hoje, aos 44 anos, Paulo trabalha como ator, diretor e produtor;  tendo poucas vezes se desviado do caminho das artes.

As lembranças de outros ofícios são poucas. Quando era criança, por exemplo, fez bico como jardineiro eliminando as titicas do quintal de uma conhecida. Foi na mesma época em que aprendeu a manipular os fantoches. Às gargalhadas, ele conta que arrancou por engano as orquídeas do jardim da patroa por tê-las confundido com ervas daninhas. O talento para a jardinagem, que já era pouco, foi definitivamente substituído pelo teatro.

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A tartaruga é um dos bonecos que ele guarda nas caixas da sua oficina caseira

A trajetória pelo universo artístico está documentada em páginas de jornais amareladas, todas recortadas e salvas em três pastas que Paulo exibe com empolgação. Rubya Bittencourt, um de seus personagens, também está nesse arquivo e na memória de um público que extrapola os limites de Bauru.

Paulo é um entusiasta das artes e, sobretudo, do teatro infantil. Por isso, anima-se com seus bonecos-personagens. Puxa das prateleiras da oficina as caixas de papelão etiquetadas e tira de dentro bonecos de feltro, veludo, isopor. Explica quem são, como foram feitos, a história por trás de cada um deles. Ali, Paulo é ator, criador e criança encantada com suas próprias criações.

“Esse aqui eu fiz sob encomenda para um programa de TV. Acabou não sendo usado, e pensei em vender… mas aí eu me apaixonei por ele!”, conta, alisando os cabelos cor-de-rosa do boneco de pelúcia azul que lembra um personagem de Vila Sésamo.

O fantoche simpático acabou ganhando um papel no espetáculo Tio Conta Contos, que Paulo encena atualmente no Bauru Shopping, pela companhia FantoCia, criada em 2012. Na montagem, ele abre livros de histórias e lê para o público.

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Paulo (em pé à esq.) e colegas exibem fantoches feitos por ele para apresentação escolar

Para todos
O encanto com os fantoches veio quando Paulo estava na terceira série. Na escola, recebeu um convite para assistir Chapéuzinho Vermelho. “Meu pai me levou pra ver e eu fiquei encantado com aquilo, aqueles bonecos no fundo preto, parecia que eu estava na terra de Oz”.

Dias depois, telefonou para o SESC e pediu para se matricular na oficina de fantoches.

Ciente do encanto que as histórias infantis causam nos pequenos, Paulo pretende apresentar seu espetáculo Os Contadores de Histórias ao maior número possível de crianças. A montagem é baseada na coleção Disquinho, série clássica que encantou as crianças nos anos 70 e 80 e consagrou personagens como A Cigarra e a Formiga e a Dona Baratinha.

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Coleção Disquinho marcou época e inspira histórias de Paulo

O objetivo é levar a atração às escolas carentes de Bauru. Para isso, criou uma vaquinha online pedindo ajuda financeira para cobrir os gastos com as exibições. O valor total calculado é de R$ 2.650,00. Até agora, arrecadou R$ 140.

“Fiz uma estimativa de 50 reais por dia, considerando gasolina. Eu e meu sócio não ganhamos nada”.

No valor, estão inclusos gastos como combustível, salário e transporte da atriz Aline Pelição, que integra o grupo. Além dela, o ator Diogo Buenno também faz parte da companhia.

“É legal fazer na escola particular, a grana é garantida, mas a criança pode ir pro teatro a hora que ela quer. Eu quero levar para quem não tem isso”.

Respeitável público
Se falta incentivo financeiro, sobra interesse por parte dos espectadores.

Contrariando os que dizem que as crianças de hoje estão cada vez menos interessadas em narrativas analógicas, Paulo confia no seu público.

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Paulo, a lebre e a tartaruga e uma das suas apresentações

“As crianças tem ipad, iphone, elas ficam com isso nas mãos. Mas quando a gente começa a mexer os fantoches no palco, elas colocam de lado (os aparelhos tecnológicos) e prestam atenção”.

Se a atenção não vem, cabe ao ator perceber a falha e mudar a estratégia. Como numa apresentação em que notou algumas crianças dispersas. Ali, entendeu que era preciso mudar o roteiro e cortar alguns minutos da história. Trabalhar com crianças é assim: um desafio que exige atenção e sensibilidade.

“Meu sócio (Humberto Pesci) fala: ‘E se não der certo? Se um dia acontecer, por exemplo, de as escolas fecharem, o teatro acabar?’ Eu digo: eu vou tirar titica de jardim. Não sei fazer outra coisa”.

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