Quando a saudade é o combustível

Jovens de bauruenses lançam o filme “Sobre os trilhos da história”; documentário faz resgate de um capítulo fundamental da história de Bauru

Textos e fotos por Gabriel Duarte

As grandes construções – e, principalmente, como lidamos com elas, também contam a história das cidades. E se a biografia Bauru ainda está sendo escrita, já é possível determinar o capítulo fundamental: a Estação da Noroeste do Brasil (NOB). Seguindo os seus trilhos é possível conhecer o passado, compreender o presente e projetar o futuro da cidade. Ela é narradora de profundas mudanças, urbanas ou sociais. Sua força, seja pela história ou pelo abandono, nos impacta até hoje.

E é neste local que estamos, no saguão da antiga estação, palco de tantas chegadas, partidas e histórias. Há 50 anos, todos os dias cerca de trinta trens e um fluxo de mais mil passageiros passavam por lá. Hoje, o local tão simbólico para a história do interior do estado de São Paulo parece ser habitado por pássaros. O cantar das aves ressalta a grandiosidade do espaço vazio, outrora tomado por malas, apitos e passos apressados.

Posicionando os vagões
É lá, no Museu Ferroviário, que encontramos Evandro Souza. O local, que sempre fez parte de sua vida, em breve ganhará novos significados. Em 29 de julho, às 20 horas, no Teatro Municipal de Bauru, estréia o documentário “Sobre os trilhos da história”. O filme de 26 minutos foi produzido como um trabalho de faculdade.  Além de Evandro, que dirige a produção, a equipe é composta por Débora Dias, Matheus Stefanini, José Rubens Leal, Henrique Moraes e Leonardo Oliveira.

 Além do empenho do grupo, a produção foi viabilizada por uma vaquinha online – que arrecadou R$ 1.425 – e por diversas parcerias.  “No final a gente vê que sozinho não dá para fazer, se você deixar para uma pessoa é impossível”, avalia Evandro. Foram três meses de trabalhos para a conclusão do documentário.
Tantas pessoas juntas provam que fazer cinema é uma espécie de locomotiva. Cada ajuda e apoio é um vagão no trilho. Cada vagão é fundamental para a viagem, assim como o combustível. Se os antigos trens eram a vapor, no cinema de Evandro a saudade tem sido a fonte de energia e movimento.
Foi a saudade que fez o jovem se envolver com o tema, embora conceituar esse sentimento não seja tarefa das mais fáceis.
– O que é a saudade para você?
– “Não sei, eu tenho saudade de tudo”, afirma Evandro, que tem esta palavra tatuada no braço. Segundo ele, o sentimento não significa apenas ficar falando e olhando para o passado, como se ele fosse melhor que presente. “Mas sei lá, é gostoso você ter lembrança boa das coisas, fazer disso meio que um combustível para você fazer coisas boas, não ficar travado no passado”, explica.
E, com todos os vagões alinhados e com muita saudade para ‘queimar’, é chegada a hora da viagem. O trem deve partir. Acomode as bagagens e aprecie a vista.
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Primeira Estação: trilhos familiares

Por 95 anos, a Estação Ferroviária de Bauru fez o transporte de centenas de milhares de passageiros. Toda a configuração do centro da cidade foi moldada pelos trilhos. “Todo bauruense tem uma relação próxima com a Estação, ou por ter ouvido histórias sobre ela ou de ter conhecido alguém que trabalhou aqui”, observa Evandro Souza. Com 25 anos, ele também um bauruense, comprava a própria tese: “meu avô foi maquinista aqui”, conta.Por causa dessa proximidade, a infância foi povoada por histórias passadas que, com certa freqüência, passeavam pelo entroncamento da linha férrea. “Eu gosto de história, minha avó contava sobre quando ela era criança, quando era adolescente, eu a fazia contar aquelas histórias mil vezes”, lembra.

“Se a gente não tem história, não temos embasamento nem para a nossa vida; se a gente simplesmente vive as coisas e passa por cima, você não tem alicerce ali, não tem uma base”, explica. E o trem de sua história pessoal tem duas estações fundamentais: o cinema e a linha férrea.

Quando criança, a rotina diária era feita de escola pela manhã e, por conta do trabalho da mãe, as tardes eram passadas na casa da avó, Maria Elza Trindade de Souza. Com ela veio o gosto pela sétima arte.  “Eu sempre gostei de cinema, desde pequeno, eu assistia filmes com a minha avó, praticamente todos os dias, a gente conversava muito sobre eles”. Os primeiros impactos vieram com Titanic, filme de James Cameron lançado em 1997, e Psicose, de Alfred Hitchcock, de 1960. Sobre o primeiro, as lembranças são superlativas. “Eu estava com seis anos, então ver um negócio daquele tamanho foi impressionante”, afirma. “Foi nesse filme que na verdade eu comecei a pesquisar como se faziam os filmes, os efeitos especiais”.

Já com o avô, Antônio de Souza, veio o contato com a ferrovia. “Quando eu era pequeno ele já tinha se aposentado como maquinista, mas me contava muito sobre o que era esta estação”. As viagens de trem foram feitas por avô e neto apenas nas recordações. Quando a estação, em 2006, voltou a promover passeios de Maria Fumaça, Evandro bem que tentou trazer o avô. “Como ele estava doente, não deu”, recorda-se. “E eu vim e acabei não trazendo ele, não deu tempo, e este é um dos motivos para eu não adiar mais nada na minha vida”.

Seus avós faleceram em 2007. O documentário “Sobre os trilhos da história” também é um pouco dos dois, é a união da paixão pelo cinema com as histórias da infância. “O filme é uma espécie de redenção para o meu avô; por isso, eu até pedi para os outros integrantes da equipe para dedicar a ele”.

Segunda Estação: movimento e saudade
“Sobre os trilhos da história” não é a primeira incursão de Evandro no meio audiovisual. Em 2015, ele lançou o curta-metragem “Corpo Avulso”. Também feito como um trabalho de faculdade, a produção foi semifinalista no Global Short Film Awards, de  Nova York (EUA) e foi selecionada para outros quatro festivais. No curta, a dança é o meio utilizado para falar de solidão. No filme, a antiga estação marca presença como um dos cenários para os corpos dos bailarinos.

“Sobre trilhos da história” também possui um sentimento como fio condutor. Entre nove entrevistados, estão gente do presente e passado da estação; entre eles, dois homens que tinham a estação como fonte de sustento: um era mecânico; o outro, telegrafista. “Foi muito interessante, a fala dos dois era cheia de um saudosismo. E, depois, conversando com outras pessoas, a gente sentia esse mesmo sentimento”, destaca Evandro como um dos pontos que mais lhe chamaram a atenção durante as filmagens.

“É uma realidade que a gente não tem hoje, as pessoas que trabalhavam aqui, trabalhavam trinta, quarenta anos. As famílias iam se construindo aqui dentro. Então, foi um período muito bom para eles”, explica. Segundo ele, para quem é de Bauru essas histórias são bem próximas.  “O meu avó, os amigos dele, as pessoas que entrevistamos, ninguém reclama de ter trabalhado aqui. É lógico, mil maravilhas não devia ser, emprego é emprego, mas eles têm uma saudade muito forte”. O registro desse tempo, além de eternizar um sentimento, é meio para os que não são de Bauru conhecer um pouco a formação da cidade.

Terceira Estação: resgate cultural
Evandro diz que fazer cinema em Bauru ainda é muito difícil. “Não existe incentivo”. Mas, registrar em imagens um pouco da história da cidade pode ser um caminho para ressignificar espaços e as relações que as pessoas estabelecem com a cidade.

Em “Sobre os trilhos da história”, o percurso escolhido foi esse. Além de contar um pouco da história da antiga estação, incluindo os quase 20 anos em que ela ficou abandonada, o filme joga luz sobre o resgate cultural que tem ocorrido no espaço. “As pessoas que a gente entrevistou estão bem confiantes de que aqui voltará a ser um lugar importante para a história da cidade”, conta.

O que é um alívio. Durante a pesquisa para o filme, Evandro diz que causou espanto a informação de que foi cogitada a transformação da antiga estação em um estacionamento de ambulância. A ideia não se concretizou, e hoje o local abriga diversas atividades culturais. “As pessoas estão começando a frequentar aqui de verdade”, comemora.


Fim da viagem?
Após o lançamento oficial do filme, a intenção da equipe é a de que “Sobre os trilhos da história” também circule por festivais, assim como “Corpo Avulso”. Ou seja, a viagem do cinema não necessariamente precisa ter um fim. Além disso, o filme também será distribuído em escolas de Bauru.

 Após trazer a estação para o cinema, Evandro avalia que o patrimônio arquitetônico da cidade também merece um filme, até mesmo como registro histórico. E ele fala com a experiência de quem anda pelo centro antigo em busca de inspiração. “Bauru tem diversos pontos históricos, mas que se precisar passar um trator em cima, vai passar”, observa, citando diversos pontos do centro que contam a história da cidade, como os antigos hotéis, casarões e praças. “É triste deixar tudo jogado assim”, finaliza.

ABERTURA

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