Postes que dão luz e flores

Além de segurar fios e lâmpadas, qual pode ser a utilidade de um poste? Abrigar e ofertar flores, ou melhor: nos lembrar que a gentileza, além de bela, é gratuita

Por Gabriel Duarte

(Para ler ouvindo: https://soundcloud.com/barbara-eugenia/cuidadoso-barbara-eug-enia-e-dani-barra)

Em a “Flor e a náusea”, poema de Carlos Drummond de Andrade, o narrador nos fala da travessia na ‘rua cinzenta’. No percurso, alucinação, tédio e loucura se fundem em passantes, muros e relógios. É o tempo de poemas e poetas pobres. Os homens, estes “estão menos livres; mas levam jornais e soletram o mundo, sabendo que o perdem”. Na fumaça dos dias, a vontade é de ‘por fogo no mundo’, acabar com tudo.

Mas algo, insuspeito, finalmente acontece. E a secura que o poema descreve é interrompida: “Uma flor nasceu na rua!”. O poeta se maravilha, reconhece que a flor é “feia” – cuja “cor não se percebe” – mas é uma flor, que “furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio”.

Um mundo ideal poderia ser divido entre os que plantam e os que mantêm os olhos atentos ao menor sinal de flor. Se o mundo assim fosse, a bauruense Piera Peral, 28 anos, teria a liberdade de participar dos dois grupos: as mãos plantam e os olhos capturam belezas.

Onde brota a sua beleza?

vasinhos

Entre idas e vindas, a jovem segue morando em São Paulo, a cidade clichê do cinza e da selva de pedra, da feia fumaça que sobre apagando as estrelas. Mas o verde sempre esteve ali. Por onde passou e morou, Piera tinha as plantas: em vasos e espalhadas. Em 2015, resolveu voltar para Bauru. De partida para outro país, ela queria passar um tempo com família.

E, do que era para ser folga e despedida, surgiu o projeto Par de Vaso. “Eu precisava fazer alguma coisa, estava dando um pouco de agonia ficar parada”, conta. Em Bauru, sua tia também estava saindo de um emprego.

Piera é formada em Comércio Exterior e Administração. Em São Paulo, sempre trabalhou com projetos culturais. Já a tia, longe do emprego, se dedicava ainda mais a uma grande paixão: cuidar de plantas. Nessa sinergia, as sementes encontraram solo fértil para que o Par de Vaso brotasse. “Foi uma forma mesmo de colocar todas as nossas ideias dentro de um projeto”.

Com a ajuda de uma prima, a ideia saiu do papel – ou melhor, a semente brotou da terra. O Par de Vaso consiste em, da maneira mais sustentável possível, propor uma nova forma de presentear. No lugar de coisas com prazo de validade ou que podem ser esquecidos, pequenos vasos de plantas. Tudo é artesanal e único.

“A gente vai presentear as pessoas e sempre damos algo que vai morrer, mesmo quando é com planta, que já vem cortada. Você dar um presente que vai crescer, evoluir e se modificar –  e você tem que cuidar – é um exercício de pensar assim: se eu cuidar dessa planta direitinho ela sempre vai estar ali”, explica.

Postes: segure o verde que me falta

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Já com o projeto funcionando, outros questionamentos brotaram. “Você florir a sua casa, deixá-la linda, maravilhosa, é algo para você e suas visitas; mas a cidade é a nossa casa, não custa, de certa forma, tentar embelezá-la”, afirma. “E o poste é uma coisa tão feia, né? Tão deprimente. Ele é todo cinza e tem aqueles cartazes de ‘amarração de amor’, todo descascado”.

Com o Par de Vaso, Piera viu uma forma de contornar isso. Começou na internet a campanha “Indique um poste”. Espontaneamente, pessoas começaram a mandar mensagens. “Foi uma coisa muito natural, as indicações já vinham contanto a história, os motivos da escolha”. Ao todo, ao longo de um dia, 15 postes de diferentes bairros de Bauru receberam os vasos.

E, se Piera deixou flores por onde passou, ela também foi embora com histórias. Para ela, a mais bonita aconteceu após o recebimento da mensagem:

“Eu tenho uma indicação para vocês, não é a minha casa, mas eu queria indicar minha vizinha que está com câncer. Ela gosta muito de planta, a casa dela é toda florida, e eu queria que ela visse esta planta como se fosse um presente, sempre que ela abrisse a porta”.

Durante a instalação dos vasos dessa indicação, Piera conta que sentiu como a “a vida é tão finita e a beleza é meio que um poder de cura”. “Eu não sei como é a rotina dela, mas deve ser difícil, e eu queria que ela pudesse encontrar, ao sair de casa, algo bonito e delicado”, conta.

Para Piera, é nesse tipo de encontro que o projeto se justifica. “O menor estímulo de beleza, alegria e sensibilidade que a gente encontra, quando estamos numa situação frágil, de certa forma, acelera o processo de cura”.

Uma troca em cada esquina

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Andar pelas ruas, dependendo da disponibilidade do olhar, também é uma forma de diálogo. Foi em um desses diálogos que Piera teve a ideia de fazer a ação nos postes de Bauru.

“Em São Paulo, ando muito a pé, e eu paro de dois em dois minutos para ver ou ler alguma coisa”. Para ela, os desenhos e intervenções artísticas espalhados pela cidade são mais do que objeto de curiosidade.

“Quando eu passo por algo assim eu dou um sorriso, sabe? Eu posso estar em um dia horroroso, que eu vou encontrar um ‘aliviozinho’ assim, tipo ‘ai que bom, alguém deixou o meu caminho mais bonito hoje, eu nem sei quem é esta pessoa, mas eu jogo este obrigado para o universo, e eu acho que essa energia vai rodando”, explica.

“A minha inspiração vem desses lambes, de frases lidas na rua, tipo ‘você já amou hoje?’, e isso voltou para mim assim: eu tenho vasos, flores, porque não espalhar flores na cidade e deixá-la mais bonita, do jeito que eu sei fazer”.

Ruas Invisíveis

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Andar pelas ruas com olhar apurado trouxe outras inquietações para Piera. Algumas situações têm o poder de quebrar a falsa ilusão de ‘ordem e progresso’ do mundo. Os moradores de rua e a sujeira que se acumula no asfalto são assim.

Que civilidade se sustenta ao encarar na rua pessoas passando fome e frio? É uma realidade feia. O feio, antes de tudo é um incomodo. E ninguém gosta de ser incomodado.

Disso surge o descuido e o abandono. “E isso acontece com tudo. Os moradores de rua, por exemplo, são pessoas invisíveis. E, se ninguém enxerga, ninguém vai querer mudar isso”, constata Piera.

“Admitir que é feio, esse é um exercício muito bom também, um exercício político, da vida”. É preciso acordar o olhar. “É passar a enxergar o que é feio e falar: ‘bom vamos fazer alguma coisa para mudar isso’”.

Rua das Flores

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Colocar flores em postes é a prática desse pensamento. “A gente está acostumado a achar que o poste é feio, estamos acostumado a não vê-lo”, explica. Por isso, o projeto pretende promover outra ação semelhante em Bauru.

A instalação dos vasos é gratuita. Piera conta que todo o processo é feito quase sem custos. As plantas são retiradas do quintal da tia; as latas que servem de vasos são doadas por amigos. Apenas a terra é comprada.

A intenção ainda é que as próximas ações também contenham plantas que podem ser usadas na cozinha, como temperos e chás. “A ideia é ter uma horta coletiva, em que todos dividam o consumo e o cultivo”, explica. A proposta é promover a proximidade entre pessoas, plantas e cuidados.

“Ainda mais no interior, que tem a fama de ser assim, mas acho que a gente está perdendo um pouco essa coisa de conhecer o vizinho, saber quem é e acolher de fato as pessoas. Acho que a gente está perdendo um pouco esta essência de acolher o outro. Com o projeto, vimos que isso ainda é possível”, finaliza.

 

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