Colorindo muros e construindo pontes

Por Carolina Bataier

A arte de Mari Monteiro pulsa sentimento. Mesmo.

Bauru sempre foi minha casa. Nasci em cidade pequena, na região, e Bauru era a referência de cidade grande. Depois, foi a cidade que me acolheu durante a faculdade e o primeiro emprego. Vivi muita coisa entre 2007 e 2013, mas naquela época não prestei muita atenção aos muros.

Então, fui morar longe, na Irlanda. E viajei. Quando conheci Lisboa, reparei nos grafites. Por toda parte: vagões de trem, bondinhos, ruas. Em Berlim, eles são enormes. Em Copenhague, na comunidade Christiania, estão por toda parte.

Despertei meu olhar para a arte de rua. Quando voltei a Bauru, cerca de 6 meses atrás, me encantei com os grafites espalhados pela cidade. Tudo mais vibrante, colorido. Sobre o concreto cinza, um coração em vermelho vivo, enfeitado com flores. Depois, em outro muro, notei o mesmo coração, dessa vez ao lado de um revólver, e a frase: “em tempos de ódio, é bom andar amado”.

Por intermédio de amigos, conheci a autora, que agora deixou também um coração na parede da sala de onde moro.

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Formada em Artes Cênicas pela USC (Universidade do Sagrado Coração) e grafiteira há pouco mais de um ano, Mari, de 25 anos, é a responsável pelos corações que pulsam nos muros de Bauru. É essa a sua marca registrada.

“É o coração porque simboliza o sentimento puro. Lembra que somos humanos, sujeitos a acertar e errar”, explica.

No peito de Mari, o coração sempre apontou o caminho das artes, mas levou tempo até que ela voltasse a pôr em prática essa paixão. Numa noite de terça-feira, ela apareceu em casa depois de um convite, e, sentada no chão, contou sua história.

Quando criança, gostava de desenhar personagens e se destacava entre os amigos da escola. Tinha talento, mas faltava tempo. Começou a trabalhar cedo, aos 13 anos, vendendo coxinha nas ruas de Ibitinga, sua cidade natal.

“Olha a coxinha quentinha, apenas um real”, ela lembra. E ri.

Ainda em Ibitinga, fez curso de costureira industrial e trabalhou até o final da adolescência nas lojas e empresas do ramo do bordado, principal atividade econômica daquela cidade. Aos 18, ouviu uma amiga falar sobre o curso de Artes Cênicas e achou que poderia ser interessante. Prestou vestibular, conseguiu bolsa pelo programa Escola da Família e seguiu conciliando trabalho e estudos.

“O curso de artes cênicas serviu para me mostrar que a arte é a minha vida”.

Durante a faculdade, ela participou de um curta-metragem, Ditadura Televisionada, premiado em três festivais. Fez teatro, também.

“O teatro é a poesia que sai do livro e se faz humana”, reflete.

O grafite chegou recentemente, em 2015, pouco depois de Mari ter voltado a desenhar. Ela diz que ainda está aprendendo, aprimorando, colhendo referências. Por isso, o caderninho de rascunhos segue sempre na mochila.

Os muros
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Os grafites de Mari estão presentes em muros de Bauru acompanhados de frases que falam amor, vida e liberdade. As inscrições são de gente famosa e desconhecida. Algumas, de criação da própria artista.

Muros abandonados, em terrenos sem casa, são alvos certos. Basta chegar, escolher o espaço e colorir. Na mochila, ela leva latas de tinta e o caderninho de desenhos, onde faz rabiscos e anota inspirações. Quando o muro cerca uma residência, a ordem é apertar a campainha e se apresentar: “Oi, eu sou artista, quero saber se posso fazer um grafite no seu muro”. Aconteceu uma vez e a dona da casa consentiu, pedindo apenas que o desenho se limitasse ao muro lateral. “Só não faz na frente”, exigiu.

Os desenhos podem ser feitos com relativa rapidez. Em cerca de 15 minutos, um muro ganha um coração de mais ou menos um metro, feito em tinta e spray. Enquanto desenha, ela se distrai bem pouco. Olha de longe, retoca os detalhes.

Ultimamente, tem trabalhado temas políticos. Feminismo e a questão racial entraram em pauta e dão o tom das frases em alguns desenhos.

“Arte em Bauru deveria receber mais incentivo”, avalia.

Enquanto o incentivo não vem, ela vai fazendo por onde. No próximo dia 20 de novembro, participará da Batalha Artística, evento que tem como objetivo divulgar o trabalho dos artistas da cidade e incentivar a produção artística. Mari será uma das grafiteiras que, no dia, vai duelar com outro artista, fazendo criações ao vivo. Ela também está envolvida  na organização do evento.

Os grafiteiros de Bauru são citados entre os nomes de gente que ela tem como inspiração e incentivo para continuar, ao lado de Picasso, Van Gogh e Frida Kahlo.

Leia também: Por dentro da Casa do Hip Hop de Bauru

As pontes
A arte é paixão e trabalho. Mari dá aula de artes na Fundação Casa Nelson Madela, em Bauru, onde passa 30 horas semanais ao lado dos 65 internos, todos meninos. Com eles, ela fala de cultura africana, ensina dança e grafite.

Outro dia, enquanto fazia um grafite no centro de Bauru, encontrou um ex-interno. O rapaz veio roubar o celular do amigo que acompanhava Mari na atividade. Ela reconheceu o jovem e tentou intervir.

“Mas não deu, ele levou o celular”. Ela  registrou boletim de ocorrência e espera que ele seja novamente levado à Fundação Casa. Não por punição, mas por esperança. “Ele teve uma oportunidade de melhorar, mas voltou para a rua, deve ser por causa das drogas. Quem sabe agora, sendo pego de novo, ele não pensa melhor e sai dessa”.

Uma das realizações profissionais é ver os internos da fundação se interessando pelo trabalho. Eles querem aprender grafite. Gostam muito também das aulas de dança. Ali, ela percebe que pode salvar vidas.

O que é a arte para você?, perguntei. “É algo que tem o poder de transformação”.

Do meu olhar desatento ao menino na rua, da menina que bordava nas fábricas de Ibitinga a você que caminha distraído num dia ruim procurando uma resposta: a arte transforma.

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