Em prédio antigo, Casa do Hip Hop traz o futuro

Nas salas da Estação Ferroviária de Bauru, jovens se organizam, ensinam e aprendem em cursos e eventos gratuitos

Por Carolina Bataier

No espaço da plataforma, entre a Maria Fumaça bem conservada e as portas de metal pesado do saguão da Estação Ferroviária de Bauru, a estudante Evellyn Trajano deu seu show. Entrou na roda, parou em frente à caixa de som, balançou a cabeça, ergueu os pés, curvou o corpo para um lado e para o outro, para trás e para frente, fez uma paradinha, colocou o dedo indicador na frente dos lábios, levantou a sobrancelha esquerda e encarou a plateia – que aplaudiu. Ao fim da música, agradeceu e caminhou sorrindo para fora da roda. Um rapaz de boné a abraçou: “mandou bem demais”. Ela sorriu novamente, agradecendo o elogio.

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Foto: Filipe Plaza

Evellyn, que tem 16 anos, foi aluna numa escola particular de dança de Bauru. Agora, faz aulas gratuitas de street dance na Casa do Hip Hop.

O palco onde ela apresentou seus movimentos já foi cenário de chegadas e partidas. Por ali passou muita gente, até a década de 90, quando correram os últimos trens de passageiros pela estrada de ferro que corta o interior do estado de São Paulo. Hoje, o espaço está conservado. O chão de cimento é limpo, há bancos de madeira com pintura nova e vagões de trem restaurados e para sempre estacionados. Um ótimo cenário para fotos saudosistas.

E só.

No interior do prédio da antiga estação há mais abandono que cuidados. Os móveis quebrados – sabe-se lá desde quando – e a poeira acumulada dão pistas de anos de descaso. A exceção são as salas do segundo andar, no fundo do corredor do lado direito para quem sobe pelas escadas. É lá que funciona a Casa do Hip Hop de Bauru.

Além do salão de dança, onde Evellyn treina seus passos às terças e quintas, há duas salas de aula – uma para cursinho pré-vestibular e outra para EJA (Ensino de Jovens e Adultos), uma biblioteca e outras salas para reuniões, cursos e eventos. Ao todo, são 8 cômodos ocupados, todos eles com paredes de tintura colorida. Todas as atividades que acontecem ali são gratuitas e coordenadas por voluntários.

A Casa do Hip Hop de Bauru funciona no prédio da Estação Ferroviária desde agosto de 2016 e conta com disposição e boa vontade. As tintas que hoje cobrem as paredes, por exemplo, são fruto de doações. Antes, a entidade funcionava numa casa no centro da cidade. O aluguel era pago com eventos organizados pelos voluntários.

“A gente viu uma matéria no jornal que falava que a Estação iria virar um centro de cultura, então no dia seguinte a gente marcou uma reunião com o Elson (Elson Reis), que era na época o secretário de cultura da cidade, daí pedimos para conhecer as salas”, conta a produtora cultural Rayra Pinto, de 33 anos, uma das voluntárias à frente da casa.

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O espaço destinado ao pessoal do Hip Hop, a princípio, era uma salinha no térreo da estação. Para o grupo, era pouco. Pediram mais e conseguiram. Foram a primeira entidade a ocupar o lugar, que deve se tornar um centro de atividades culturais nos próximos anos, de acordo com informações da prefeitura de Bauru.

“Como o espaço estava abandonado há muito tempo, as paredes estavam cheias de fuligem, o chão tinha trocentas camadas de poeira. A gente tem filmagem dessa época, a gente lavava e saía um caldo preto”, lembra Rayra.

A Casa do Hip Hop de Bauru integra uma rede formada por outras casas, em outras cidades do interior de São Paulo. Para finalizar o espaço, vieram artistas das outras unidades. Cada um deixou suas marcar em grafites nas paredes, que hoje ostentam retratos bem feitos da pintora Frida Kahlo, da escritora Carolina de Jesus e do educador Paulo Freire, entre outros nomes que não estão ali por acaso.

Voz e movimento
A Casa do Hip Hop é um espaço aberto para criação, troca de ideias e produção cultural. O público-alvo são os jovens da periferia da cidade, como Ingrid de Melo, 25 anos, moradora do Jardim Vânia Maria. Durante o dia ela trabalha como vendedora numa loja de cosméticos no centro da cidade. A noite, treina os movimentos do break ao lado do noivo, o desempregado Marcos Antonio Lipu, 28, morador da Vila Dutra. Os dois dançam faz 10 anos. Na Casa do Hip Hop, treinam às quintas e domingos.

“Fiquei um bom tempo numa academia, no street dance, depois saí por questões financeiras, porque não podia pagar as aulas. Conheci o break e vi que não precisava pagar”, conta Ingrid.

Envolvidos com a cena do Hip Hop, acreditam que o movimento em Bauru tem força. Evellyn concorda, mas quer mais. Ela espera que a Casa do Hip Hop receba mais atenção.

“A gente tem eventos, sim, mas precisa do fortalecimento de pessoas maiores, nomes maiores pra nossa casa. A gente não tem uma água gelada, a gente não tem estrutura, porque choveu e estava tudo molhado”, lembra.

Ela entende que um espaço bem cuidado pode atrair cada vez mais frequentadores e, consequentemente, diminuir o preconceito que muitas pessoas ainda têm com esta manifestação artística.

“Para o movimento do Hip Hop é muito importante ter um espaço não só para fortalecer o movimento, mas para formar novos artistas, passar a essência da cultura”, explica Rayra.

Aulas e oficinas
A cultura Hip Hop é baseada em 4 expressões artísticas: dj, break, grafite e rap. Na casa, as atividades vão além. Capoeira, kickboxing, maquiagem, dança do ventre e street dance são algumas das aulas que acontecem por lá. Não há critério para participar, apenas limite de vagas das oficinas, de acordo com a disponibilidade do professor ou professora.

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Foto: Filipe Plaza

O espaço da casa é também sede das reuniões da Frente Feminina de Hip Hop, que realiza reuniões periódicas com objetivo de debater questões de gênero.

Quinzenalmente, acontecem as sessões do cine Pixote, com exibição de filmes sempre no primeiro e terceiro sábados do mês. Além disso, são realizadas oficinas esporádicas. Em dezembro de 2016, a casa recebeu cerca de 15 participantes para uma aula de escrita criativa com o escritor Ni Brisant. Tudo gratuito. Eram 30 vagas.

A divulgação dos eventos e cursos é feita principalmente pelo Facebook. Eventualmente, pela mídia local. As portas são abertas tanto para quem quer aprender quanto para os que têm interesse e disponibilidade para ensinar.

Sala de leitura
Dentro da Casa do Hip Hop, fica a Biblioteca Móvel Quinto Elemento. Como o nome sugere, é uma biblioteca itinerante, que circula pelos bairros de Bauru levando e recebendo livros gratuitamente. Nas manhãs de sábado, a banca de leitura é montada no calçadão da Batista de Carvalho, esquina com a rua Treze de Maio, no centro da cidade. A cada sábado, são emprestados cerca de 30 livros. Quem gosta de ler pode chegar, retirar e devolver quando quiser. Quem tem livros parados pode doar.

Os organizadores estimam que a biblioteca conta com 2 mil títulos. Na Casa do Hip Hop, o espaço funciona de segunda a sábado, das 10 às 22h.

Eventos
Evellyn mostrou sua dança no primeiro evento de 2017 da Casa, o Estação Hip Hop, que aconteceu entre a tarde e a noite do dia 5 de fevereiro. Eventos como esse, que atraem muita gente, são feitos na parte térrea do prédio da Estação, sobre a plataforma, ao lado da Maria Fumaça e dos vagões de trem que hoje servem para visitação.

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Foto: Filipe Plaza

As apresentações são abertas. Basta chegar, sentir o som e dançar, ou se aproximar do microfone e recitar um poema. Nas rodas, a plateia incentiva, entre um gole e outro de cerveja.

Quem gosta de se arriscar nos traços, pode tentar um grafite em um dos painéis onde meninas e meninos deixam suas marcas, enquanto outros param para olhar, elogiar, dar sugestões ou tirar fotos. O portão principal da entrada da Estação segue fechado. Um morador de rua dorme bem na entrada. Na rua, o dia segue silencioso e vazio, como são os domingos no centro de Bauru. No portãozinho lateral, que dá entrada ao evento, jovens se encostam, fumam, entram e saem.

Do lado de dentro, a festa segue até as 22h. Ingrid e Marcos acompanham o ritmo dos Djs e MCs. Rayra observa o movimento e Evellyn, entre um agradecimento e outro à sua performance, lembra que tudo pode ser ainda melhor.

“Melhorando a estrutura, as pessoas parariam de ter medo de vir aos eventos. As pessoas tem que ter menos preconceito com quem é do Hip Hop. O Hip Hop traz a ideologia da periferia de Bauru”.

 

Serviço
Local: Casa do Hip Hop de Bauru fica no segundo andar do prédio da Estação Ferroviária, em frente à praça Machado de Melo, no centro da cidade.
Horários: os horários de funcionamento variam de acordo com as oficinas e cursos.
Mais informações:  https://www.facebook.com/Casa-do-Hip-Hop-Bauru-459089607594322/?fref=ts

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