Cultura Indígena: história do presente

Texto, fotos e vídeo: Gabriel Duarte
Edição: Carolina Bataier

O local é por si só histórico. E até o dia 21 de abril, período em que a antiga Estação Ferroviária recebe a Semana Cultural Indígena Bauru, todo o peso da história ganha novas perspectivas e possibilidades com um objetivo: diminuir o preconceito contra os povos indígenas.

Se já é impossível andar pela antiga Estação sem pensar no passado – no tanto de gente que encontrou ali um ponto de chegada ou partida, um primeiro (ou último) olhar para Bauru – com a Semana, este passeio ganha novos caminhos que constroem os trilhos do presente.

No saguão, bem ali onde os trens já não se despedem saudosos ou chegam apressados, agora há uma oca; mas não uma qualquer. Por fora ela é típica e por dentro, é a desconstrução de preconceitos há muito tempo arraigados.

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Existe índio no Brasil?
A resposta é: não. E esta oca-instalação, que faz parte da exposição da Semana da Cultura Indígena, nos explica os motivos desse ‘não’. A programação da Semana deste ano tem como tema “Menos preconceito, mais cultura indígena”. Além da oca, durante o evento, será possível conferir a exposição fotográfica “Conhecendo a Aldeia Kenopoti”, de Aline Maffi, e entrar em contato com a história de um dos povos indígenas da região através da “Praça Kaingang”.

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Praça Kaingang, no Museu Ferroviário, é o local onde a cultura indígena pode ser relembrada e reverenciada em toda sua riqueza

 

Irineu Nje’a, pertencente à etnia Terena e membro da Araci (Associação Renascer em Apoio à Cultura Indígena), entidade que junto com a Prefeitura Municipal de Bauru organiza o evento, explica que a antiga estação é o “cenário correto” para debater a questão indígena.

“É bem significativo e é até uma ironia do destino, mas fizemos uma oca, uma casa indígena, embaixo de uma arquitetura que foi palco da dizimação em massa dos povos Kaingang. É nesta oca é onde eu vou poder falar sobre esta história”, explica Irineu. Além da simbologia, ele tem a consciência de que toda história não é só boa ou ruim.

“Foi aqui, em 1932, que chegaram os primeiros Terenas. Num ponto, eu sou grato por isso. Mas, em contrapartida, o desenvolvimento proporcionado pela Estação precisou dizimar quase totalmente os povos indígenas, como os Kaingang; e não só eles, mas muita gente que foi na frente para abrir a estrada de ferro, porque Bauru era a ‘Bocão do Sertão’. E os conflitos foram muito fortes, muita gente morreu”, explica.

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Irineu Nje’a conta que a construção da oca na Estação só foi possível com a ajuda de diversas pessoas: “sem eles, nada seria possível” 

Formado em história e pós-graduado em antropologia, Irineu é um de muitos que lutam pela cultura indígena na região de Bauru. Ao longo de sua história, o orgulho de suas origens muitas vezes esteve ao lado do preconceito sofrido.

E o preconceito, ardiloso como é, muitas vezes se esconde nos detalhes. Ele conta que, ainda rapaz, foi até uma repartição pública e, enquanto estava na recepção, ouviu alguém falando para o funcionário responsável pelo atendimento: “Tem um índio lá na frente te esperando”. Sentiu-se incomodado.

“Ai eu comecei a pensar, mas eu não sabia bem o que era. A partir daquele momento, eu comecei a desenvolver um trabalho de ativista e entendi que o a palavra ‘índio’ tirou uma identidade. Poderiam ter me chamado de ‘Irineu’, ou terena, que é a minha etnia, mas falaram ‘índio’”, recorda-se.

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Dentro de um vagão desativado, em imagens, as fotos de Aline Maffi promovem uma viagem de luz, sombras e belezas

Após estudar e pesquisar diversas referências, ele chegou na constatação: a palavra ‘índio’ não existe. Portanto também não existe ‘índio’ – o ser denominado. Existem povos indígenas. E isso não é uma questão meramente léxica. A ONU (Organização das Nações Unidas) e as entidades dos Direitos Humanos governamentais reconhecem isso.

E porque o termo ‘povos indígenas’ é importante? Pelo simples motivo de que a palavra ‘índio’ reduz toda riqueza étnico-cultural de gerações. Sim, o termo ‘índio’ não é capaz de dimensionar as cerca de 300 etnias e mais de 270 línguas existentes no território brasileiro e que constituem os povos indígenas da região.

Além disso, a escolha do termo ‘povos indígenas’ deixa claro que, antes da colonização, a América era povoada e esses agrupamentos possuem descendência que chega aos dias atuais; esses grupos possuem história própria, apesar de ter sido reconfigurada pelo processo de colonização; e, por último, esses grupos podem extrapolar fronteiras internacionais, já que a sua presença é anterior à demarcação dos limites geográficos dos países americanos.

Preconceito e palavras: o som da aceitação
O cuidado com a palavra é um primeiro passo na superação do preconceito. E dentro da cultura indígena, a língua também é um elemento cultural muito forte. Por exemplo: Irineu usa o ‘Nje’a’ como sobrenome. Este segundo nome lhe foi dado por seu pai e na língua terena significa ‘meu filho’.

Por isso, em seu trabalho e militância, ele sempre busca colocar em pauta a questão do termo ‘povos indígenas’. Essas discussões também são feitas para professores da rede municipal de ensino – por meio de cursos realizados em parceria com prefeitura – e com crianças, por meio do projeto de contação de história.

“Através da educação também construímos a resistência. Uma resistência forte e silenciosa, mas é um tsunami que reverbera e pode mudar muitas coisas”, explica.

Para ele, em Bauru é fundamental que a história dos povos indígenas da região não seja esquecida. “E tudo começa com o interesse, com a propagação de nossas histórias”. Além disso, há três anos Irineu participou da criação da Associação Renascer em Apoio à Cultura Indígena, ou simplesmente Araci, que em tupi-guarani significa “novo dia” ou “aurora”.

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Dentro da oca-instalação a lâmpada mais do que iluminar promove diversos questionamentos 

Aldeia Global: espaço de conexão e lutas
No entanto, Irineu reconhece que, além do preconceito linguístico, há outros embates no horizonte. O primeiro deles está na esfera das políticas públicas. A inexistência de amparo legal é um ingrediente fatal para a desintegração da cultura indígena.

“Há pouco tempo, um pessoal deixou filho e esposa para ir trabalhar na colheita de maçã lá no Rio Grande do Sul. Se você for analisar, não há necessidade, pois há terra aqui”, conta. Muitas vezes, por falta de incentivos e articulação governamental, as reservas se tornam improdutivas e a evasão é o único caminho viável.

Além disso, em termos sociais também é preciso superar o preconceito. Irineu conta que os povos indígenas, mesmo inseridos no contexto urbano, não perdem a identidade. E propagar essa percepção é um trabalho fundamental e, sobretudo, histórico.

Os dois movimentos agem de forma eficiente para silenciar esses povos e justificar iniciativas como a do recém-empossado Ministro da Justiça, Alexandre Moraes, que alteram as regras de demarcação de áreas indígenas. Após fortes críticas por parte das entidades e dos militantes da causa indígena, o ministro foi obrigado a recuar. Atualmente, cerca de 13% do território nacional é composto por terras indígenas demarcadas.

Pense nos 500 anos de Brasil em que diversos povos, culturas e elementos indígenas foram dizimados sob o guarda-chuva do termo ‘índio’. Já no presente, o discurso de que ao se inserirem no meio urbano eles deixam suas culturas sedimenta ainda mais este processo de negação.

Ou seja, primeiro nega-se a identidade que, ao deixar de existir, é capaz de levar consigo outros diretos como: à terra, cultura e liberdade. Por isso, mais do que nunca, para os povos indígenas o tempo é de luta e ela se desdobra em diversos espaços, como a internet.

“A tecnologia não veio para tirar a nossa identidade, ela veio para fortalecer o que a gente tem a ensinar à sociedade. Porque aprendeu-se uma cultura: a história dos vencedores. Mas, agora, o indígena está sendo o protagonista da sua própria história e, mais importante, contanto a sua própria história com as ferramentas disponíveis, como o computador”, finaliza Irineu.

Por isso que, ao visitar a oca-instalação, não se assuste com os telefones, relógios e até luz elétrica. Faça a travessia dos conceitos.

Serviço: Semana Cultural Indígena Bauru
Quando: até 20/4
Horário: das 8h às 11h30
Onde: Estação Ferroviária de Bauru
Programação:

Dias 17,18,20 das 8:00 às 11:30.
LOCAL: Estação Ferroviária Bauru-SP
• Venha conhecer a nossa Oca na Estação Ferroviária
• Exposição de fotos Conhecendo a aldeia Kopenoti.
• Praça Kaingang. Quem são os kaingang e por onde andam?
• Vendas de artesanatos em cerâmica

Dia 19 a partir das 9:00
LOCAL: Aldeia Kopenoti – Reserva Araribá/Avaí-SP (LIVRE)
• Diversas atividades e atrações: Palestras, danças cultura, triha ecológica, praça de alimentação, vendas de artesanatos, pintura corporal
Entrada gratuita.

Obs.: Para visitação com grupos de alunos nos eventos que ocorrerão na Estação Ferroviária é necessário fazer inscrição com antecipação. Evento na Aldeia é livre
Contato : araciculturaindigena@gmail.com – A/C Irineu Nje’a watt: 14 988002577

 

 

 

 

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