O silêncio que inspira o som de Manu

No Espaço Gaia, em Bauru, a cantora Manu Saggioro cria, se inspira e abre espaço para encontros artísticos

Por Carolina Bataier e Gabriel Duarte

Três da tarde, avenida Rodrigues Alves, centro de Bauru. Nos dias úteis, atravessar as ruas requer atenção. Motociclistas passam em alta velocidade e os carros mais afoitos aceleram diante do sinal amarelo. Todos, pessoas e veículos, parecem ter pressa. Só as poucas e pequenas árvores da avenida, uma das mais antigas da cidade, ignoram o dia útil, as horas do relógio e as intermináveis trocas de sinais.

“Você sabe onde passa o Parque City?”. Encontramos o ponto do ônibus na terceira tentativa. Trinta minutos depois, descemos na rua Mario dos Reis Pereira, limite entre os bairros Parque City e Colina Verde, onde o asfalto morre e cede espaço para o verde.

No fim da rua, cercado de árvores, silêncio e latidos de cachorro, fica o Espaço Gaia, que abriga atividades terapêuticas e cultuaris, agregando pessoas e arte. No local, acontecem sessões gratuitas de meditação (sempre em um domingo do mês), aulas de yoga, psicoterapia, massagens (shiatsu, ayurvédica), acupuntura, meditação, cursos, palestras, workshops e apresentações artísticas mensais. Muitas dessas atividades estão sob os cuidados de Ana Cristina Pereira, com o apoio da cantora e musicista Manu Saggioro.

Mas, a importância deste local ultrapassa esta extensa lista atividades. É ali que Manu firma seu chão e ponto de inspiração, chegada e partida. Se todo mundo necessita de um eixo, as órbitas desenhadas por Manu – sejam com o corpo, pelas estradras, ou pela voz – se alinha neste espaço, que se entrelaça com a vida de sua família.

Sob à luz do entardecer

Sentamos à varanda para conversar, tomar café e observar a luz da tarde escorrer entre as árvores, agora maiores – em tamanho e quantidade. Em se tratando de Manu, a conversa não se restringe apenas à música. Em sua voz e gestual, os assuntos se propagam por diversos locais, sons e inspirações.

Ela nos apresenta os diferentes ambientes que compõem o Espaço Gaia. Enquanto a seguimos, o tempo ganha novo ritmo, embalado pelas histórias sobre o local e sobre a própria Manu – e pela convite à tranquilidade que a natureza propõe.

– Ali tem um monte de alface. Vocês querem? Depois vocês levam um pé!

Aceitamos e seguimos o roteiro da apresentação do espaço. Da conversa, ficamos sabendo que Manu, ainda adolescente, leu On the Road de Jack Kerouac e que depois, aos 19 anos, por influência do papa da beat generation, viajou pelo Brasil com um amigo, de violão a tiracolo. Com pouco dinheiro e alguma coragem, tocaram em troca de comida e abrigo.

Mais do que a realização de sonhos e liberdades, a experiência tornou evidente o que antes já era pressentido – que de um jeito ou de outro, os caminhos de Manu passavam pela música. Antes da viagem, ela conta que já tocava e cantava junto com um amigo, ambos fazendo os papeis de parceiros e ouvintes, mas sempre às escondidas, sem público.

Foi depois da vida on the road, que durou quatro meses, que ela voltou a Bauru e formou sua primeira banda, a Tecnicolor. O nome é homenagem ao oitavo disco d’Os Mutantes. Foi o começo da carreira, que hoje passa por clássicos do rock, da mpb e tem ritmo e criações próprios.

Há 13 anos, Manu integra a banda Inlakesh. Junto com Daísa Munhoz (vocal), Beta Telles (baixo) e Andreza Trentini (bateria), toca clássicos do rock e enche os bares e ginásios onde a banda se apresenta.

Nos últimos meses, está reclusa e focada na gravação do seu próximo trabalho autoral. Manu entra em estúdio em julho. “Metade do disco é de música minha; outra metade, música inédita de gente que eu gosto… É um disco de música popular brasileira e que tenho a grande honra de ter como diretora artística a Ceumar” conta.

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Manu e Ceumar durante apresentação na Praça Kaingang, no Museu Ferroviário de Bauru, em outubro de 2016. (Crédito: La Alma Produtora)

Veja também: 9 espaços artísticos para conhecer em Bauru

Espaço Gaia e relações com outros artistas
Além da vasta programação de atividades, o Espaço Gaia é lugar de criação – é ali que Manu tem um estúdio musical; e de oferta, já que as portas são abertas ao público.

A ideia de abrir o espaço para apresentações artísticas surgiu em 2004 e se intensificou recentemente.

Nessas ocasiões, o galpão de madeira e vitrais – que recebe sessões de meditação todos os dias, feitas por alunos ou moradores do local – é adaptado e vira palco para artistas da região e de outros estados, como Déa Trancoso, do Vale de Jequitinhonha, sertão de Minas Gerais, que já ministrou oficina por lá. Nesses eventos, as almofadas espalhadas pelo chão abrem espaço e o ambiente é tomado pela música.

Para Manu, essa é uma forma de viver entre aquilo que ama e oferecer à cidade mais uma opção cultural. Quando pensa sobre o consumo de arte, ela tem suas críticas. Em sua avaliação, ainda não estamos acostumados a destinar tempo e dinheiro para esse tipo de atividade.

“Eu acho que tem a ver com a nossa educação. Tem uma coisa de infância, de família. Uma das maiores tristezas é a confusão que se faz entre arte e entretenimento. A pessoa acha que está tendo contato com arte, mas não. É puro entretenimento”, pontua.

Além disso, ela também chama a atenção para uma espécie de ‘desvalorização’ do fazer artístico; com isso, as pessoas tendem a não entender que o artista também precisa de remuneração, por mínima que seja.

Manu deixa claro que não gosta de rotular as produções. Lembra, no entanto, que muito do nosso consumo de arte é relacionado a eventos onde a apresentação musical, por exemplo, é só uma parcela do que é oferecido. O oposto daquilo que é proposto no Espaço Gaia: sentar e ouvir.

Ver.

Sentir.

Inspirar

e expirar.

Contemplação.

Ouvir a natureza a respeitá-la. Em forma de vento entre as árvores, de barulho da chuva ou de música.

“A gente é muito arrogante, porque o que é soberano é a natureza”, pontua a cantora.

Para chegar e ouvir
Na próxima quinta-feira, dia 22, o Espaço Gaia recebe mais um show, a partir das 20h30. Rodrigo Zanc traz a sonoridade da viola brasileira, com abertura de Vinicius Dias Zurlo. A apresentação é parte do projeto Dandô – Circuito de Música Dércio Marques, que tem objetivo de espalhar música por várias cidades do Brasil, por meio de intercâmbio de artistas. Para o show, pede-se uma contribuição mínima de R$ 15.

 

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